Territórios de Permanência - Centro Cultural São Paulo - 2026
Curadoria: Renata Felinto
Período: 08/03/2026 a 03/05/2026





Territórios de Permanência, no sincopado da nossa história
Território de Permanência nomeia, antes de tudo, a insubmissão ao sepultamento de nossa contribuição afro-paulista, pedra funda na edificação das culturas do samba. Nesta segunda exposição individual de Soberana Ziza, e primeira institucional, a artista amplia procedimentos iniciados em 2021, articulando pintura a outras linguagens e metodologias de documentação, como vídeo-documentário, cartografia, desenho digital em tecido, para produzir obras inéditas ancoradas em pesquisa de campo sobre as origens do samba. A pesquisa se orienta pela escuta e pela convivência com mestras e mestres em cidades como Piracicaba, Pirapora do Bom Jesus, Santana de Parnaíba, Tietê e São Paulo, deslocando o eixo interpretativo para quem sustenta, no corpo e na comunidade, a transmissão de repertórios e a reinvenção de formas.
É nesse horizonte de permanência, como direito de autoria e ética da memória, que se compreende o desdobramento inaugurado por Ziza em 2021, quando sua trajetória passa a operar a história não como fundo, mas como substrato de trabalho. Em Mulheres: raízes da conexão, a artista articulou uma exposição distribuída em três espaços, a Casa Hub, na Praça da Bandeira, a Galeria Choque Cultural, nos Jardins, e as ruas da capital marcadas por vestígios negligenciados da presença negra, como a Igreja de Nossa Senhora dos Aflitos e seu entorno, na região hoje afro-nipônica da Liberdade, e a Ladeira da Memória, nas imediações da estação Anhangabaú do Metrô. Como quem salvaguarda um tesouro, metáfora que aqui se refere tanto à pesquisa quanto ao método, Ziza coletou, analisou, correlacionou e reinscreveu informações históricas e simbólicas, evidenciando como décadas de gestões municipais pouco comprometidas arruinaram, sem extinguir, o legado negro que funda a cidade.
Os processos de formação do Estado e da cidade de São Paulo estão profundamente vinculados à presença, ao trabalho e à resistência da população negra escravizada e de sua descendência. Entre os séculos XVI e XVII, a vila de São Paulo de Piratininga estruturou-se sobre o trabalho compulsório, e, no século XVIII e início do XIX, São Paulo se afirma como cidade escravista urbana, com quitandeiras, carregadores, artesãos, cocheiros, amas de leite e trabalhadores de aluguel integrando a dinâmica cotidiana. Regiões como o Largo da Sé, atual Praça, e o território hoje conhecido como Liberdade concentravam mercados, leilões e punições públicas. Não é sintomático das políticas de patrimonialização seletiva e da memória oficial que, a poucos passos da Sé, entre a Praça da Sé e a Praça Doutor João Mendes, onde o largo abrigou Câmara e cadeia, e, na Liberdade, onde existiu o Cemitério dos Aflitos junto à Capela dos Aflitos, se concentre hoje um dos mais antigos centros judiciários da capital, o Fórum João Mendes Júnior? É sobre esse acúmulo histórico de violência, controle e supressão que Ziza estrutura criticamente sua produção, comprometida com uma justiça simbólica, epistêmica e histórica das narrativas negras na cidade e no estado.
Nesse terreno, a pluralidade de origens africanas, reordenadas no Brasil por etnônimos e pertencimentos forjados na travessia, ajuda a compreender por que o repertório histórico, cultural e artístico do legado performático, corporal, musical e visual resulta tanto de transmissões diretas às linhagens quanto de confluências que produziram novas interpretações. Assim se compreende que as culturas do samba, em suas múltiplas expressões, como o samba-lenço rural, o samba de bumbo, o batuque de umbigada, o samba de cururuquara e o samba rock, assim como as festas religiosas das irmandades católicas, as agremiações recreativas, os bailes e os concursos de beleza, compõem territórios de permanência. Sítios como os quilombos do Jabaquara e da Saracura, na região do atual Bixiga, são emblemáticos tanto pela permanência territorial quanto por sua condição de polos de convergência, inclusive com grupos de imigrantes italianos, e seguem atravessados por expulsão e gentrificação, ao mesmo tempo em que produzem sociabilidade, transmissão e invenção cultural.
Essa permanência, comunitariamente gerida e vivida, pode ser lida pela espiralidade temporal formulada por Leda Maria Martins, quando o tempo retorna e se atualiza, sem se repetir, reinscrevendo memória no presente e produzindo continuidade por transformação. É nesse campo que se inscrevem as entrevistas de Soberana Ziza com Eny Souza, Luiza Camargo de Jesus, Mestre Herculano e Mestre Antonio Carlos, aproximando voz, lugar e memória como matéria de pesquisa e como forma de salvaguarda comunitária. Na contemporaneidade, experiências como o Samba da Vela reafirmam o samba paulista como criação coletiva fundada na oralidade e na partilha, enquanto o samba rock evidencia a capacidade de reinvenção das culturas negras paulistas em diálogo com matrizes musicais transnacionais.
Há uma afirmação atribuída a Vinicius de Moraes (1913 a 1980), proferida em 1960, segundo a qual São Paulo seria “o túmulo do samba”. Repetida ao longo do tempo, essa sentença recebe resposta a partir da pertença. Em 1987, Leci Brandão (n. 1944) grava “Me perdoa, poeta”, em parceria com Reinaldo Gonçalves Zacarias (1954, 2019), o Príncipe do Pagode, reafirmando que a cidade tem bambas, escolas e comunidades, ao nomear a Barra Funda, o Bixiga e a Nenê de Vila Matilde, condensando a discordância no verso, “me perdoa, poeta, mas discordo de você”.
O incômodo não está no verso em si, mas no que ele tenta fixar como verdade histórica, pois o samba foi, e segue sendo, potência organizadora da vida, presente em celebrações familiares, em programas radiofônicos dedicados à música negra, e tecendo sociabilidade, cuidado e elegância cotidiana.
É dessa matéria que emergem as pinturas a óleo de estética realista e os desenhos de traços suaves apresentados por Soberana Ziza. Suas imagens convocam criações negras que as elites desejaram apagar, mas que permanecem contínuas e sinuosas, sustentadas por uma consistência silenciosa que faz da sutileza uma forma de permanência.
Ao articular pinturas, desenhos, registros audiovisuais e ações performativas, a exposição revela camadas ocultas e outras formas possíveis de narrar a cidade. Como nos antigos territórios negros soterrados pela urbanização, tesouros que pareciam perdidos reaparecem. A exposição lembra, sem alarde, que São Paulo jamais enterrou o samba. Ele segue vivo, reinventado e transmitido, sustentando cotidianos, memórias e territórios negros que continuam a produzir a cidade, apesar dela.
Renata Felinto
Fevereiro de 2026